domingo, 13 de outubro de 2013

Estudo sobre o significado e o valor espiritual da Ceia do Senhor


(Nem Transubstanciação, nem Consubstanciação, nem Representação, a Ceia do Senhor é uma Realidade Espiritual).
A matéria que vamos abordar é polêmica e tem sido alvo de inúmeras discussões, embates e argumentos verbais e escritos, durante séculos. Apesar dessa batalha renhida e infrutífera a maioria dos teólogos concorda que a Ceia do Senhor é uma ordenança, um memorial, um ato de comunhão com Deus e com a Igreja. A ceia não é um sacramento como ensina a Igreja Católica. Sacramento refere-se à ideia de que a ceia do Senhor transmite graça salvadora a quem dela participa e benefícios, como, milagres, curas e prodígios. Interpretação que não encontra apoio bíblico.

Quanto ao entendimento do Isto é o meu corpo” “Isto é o meu Sangue”, existem pelo menos quatro formas de interpretação no que se refere ao pão e o vinho, as quais relacionamos a seguir:
1º) – Transubstanciação: Segundo entendem os católicos romanos, quando o sacerdote abençoa o pão e o vinho, estes transformam-se em corpo e sangue literais de Jesus, baseados em descrições filosóficas de Aristóteles acerca da “substancia”. Doutrina exposta por Tomás de Aquino, em 1215, confirmada pelo Concílio de Trento em 1551 e ratificada pelo Papa Leão XIII. Se realmente o pão e o vinho se transformassem no corpo e no sangue literal de Jesus, se tornariam objetos próprios de adoração; idéia inaceitável para os crentes, porque seria uma forma disfarçada de idolatria.
2º) – Consubstanciação: Doutrina ensinada por Lutero quando estabeleceu a Reforma,  significa que o corpo e o sangue de Jesus, se unem às substâncias do pão e do vinho porém, não sofrem nenhuma transformação na essência.
3º) – Representação: É a interpretação simbólica do pão e do vinho. Estes são simplesmente, representações, figuras, tipos e emblemas, do corpo e do sangue de Cristo. A maioria das Igrejas tradicionais e Igrejas evangélicas (Pentecostais e Neo-Pentecostais) defendem esta posição. Segundo nossas pesquisas neste assunto chegamos a conclusão que quem inventou  esta doutrina foi João Calvino,logo após a reforma. Num comentário sobre a Ceia do Senhor, Calvino fala 11 (onze) vezes sobre sacramento e 5 (Cinco) vezes sobre representação, sem fundamentar com versículos bíblicos, em virtude de não haver suporte bíblico para tal argumento.
João Calvino,nasceu no ano de 1509,numa pequena cidade francesa.Mudou-se para Genebra,Suíça,quando já era adulto,onde estudou,e conheceu outros reformadores.Calvino morreu aos 55 anos em 1564.em 1550 escreveu o artigo mencionado acima .A reforma ocorreu em 1517,quando ele tinha 26 anos.
4º) - Realidade Espiritual: É a doutrina que tem como suporte bíblico fatos espirituais. Afirma que Jesus ao proferir as palavras “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue”, falava de uma realidade espiritual e não algo material e corruptível, como pão e vinho. Essa realidade espiritual não é perceptível aos nossos sentidos. Toda questão espiritual tem a sua realidade diante de Deus. Se o que se vê é mera aparência e não realidade, descobriremos que isso que tocamos não tem qualquer valor espiritual. A realidade de um fato espiritual, não é material.

O que é realidade espiritual?“Deus é espírito, e importa que os seus adoradores adorem em espírito e em verdade” (Jo. 4.24). “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda verdade” (Jo 16.13). “O Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é averdade” (1º Jo 5.6).

Essas passagens revelam que Deus é Espírito e, portanto, tudo o que se relaciona com Deus está no Espírito. O Espírito da verdade é o Espírito da realidade. Por essa razão, a realidade espiritual deve estar no Espírito. É isso que transcende o homem e a matéria. Todos os fatos espirituais são nutridos no Espírito Santo. Uma vez que qualquer coisa esteja fora do espírito Santo, ela se torna letras e formas mortas. Fatos espirituais são reais, vivos e cheios de vida somente quando estão no Espírito Santo.
É o Espírito Santo, quem nos leva para dentro de toda realidade. Se alguém toca nessa realidade, ele obtêm vida, pois vida e realidade estão intrinsecamente unidas.
Apesar da realidade espiritual ser expressa em palavras, tais palavras não importam quantas, não são realidade. “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres (de realidade espiritual), vestidura brancas para te vestires (de atos de justiça),afim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez (pobreza espiritual), e o colírio (revelação do Espírito), para ungires os olhos, afim de que vejas” (a realidade espiritual). Ap. 3.18
  • A partir deste ponto não mais faremos menção a doutrina da Consubstanciação, por ser semelhante a doutrina da transubstanciação.
 A esta altura convém ressaltar que existem nos meios acadêmicos, três fontes do saber, a Teologia, a Filosofia e a Ciência experimental. Teologia se fundamenta na Fé. A Filosofia tem como fundamento a Razão (lógica, silogismo) e a Ciência se baseia principalmente nos experimentos (conhecimento empírico).
Quando afirmamos que simbolicamente algo é representado, estamos utilizando a razão, pois a representação está no campo da lógica,portanto, no domínio da Filosofia. Como não encontramos uma explicação teológica convincente para afirmar que o pão é o corpo de Cristo e o vinho é o sangue de Cristo, apelamos para a representação. A representação não é a coisa ou a entidade representada. Por exemplo a bandeira brasileira, não é o Brasil, o emblema da igreja do Belenzinho em são Paulo, não é a igreja,. Ambas são representações.
Tanto a transubstanciação, como a consubstanciação, não traduzem a verdade bíblica, apesar de estarem no campo da teologia ainda que de maneira errônea. 
representação, também não traduz o pensamento de Cristo e se situa no campo da Filosofia.
Quando falamos em representação, estamos abstraindo através da mente, algo que não sabemos demonstrar teologicamente.
Se os elementos da Ceia, fossem realmente uma representação poderíamos ingeri-los indignamente e não haveria condenação, pois trata-se simplesmente de pão e de vinho.  Como há uma realidade espiritual na Ceia, se participarmos indignamente, o faremos para a nossa própria condenação, não discernindo o profundo e espiritual significado da Santa Ceia.
Exemplos de realidade espiritual.
1)  partir do pão Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, e, abençoando-o, o partiu, e deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E tomando o cálice e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo Testamento, que é derramado por muitos, para a remissão dos pecados. E digo-vos que, desde agora, não bebereis deste fruto da vide até aquele Dia em que o beber de novo convosco no reino de meu Pai”.(Mt. 26.26-29).
Alguns consideram isso do ponto de vista físico e, afirmam que quando o pão e o cálice são abençoados, toda a substância do pão se converte no corpo do Senhor Jesus e toda a substância do fruto da videira é mudado em sangue do Senhor. Outros vêem isso do ponto de vista racional argumentando que o pão e o vinho não foram transubstanciados (como no caso anterior), mas apenas representam o corpo e o sangue de Cristo.
Analisando as palavras de Jesus, vemos que, ele não enfatiza nem a transubstanciação nem a representação, mas a realidade espiritual. Por trás daquilo que se come e se  bebe está a realidade espiritual. Jesus disse: “Isto é o meu corpo”; Ele não disse: Isto representa o meu corpo”.
Se Jesus disse o que não queria dizer, por que não disse o que queria? Depois de dizer: Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança.” Ele continuou “Não bebereis deste fruto da vide”, indicando claramente que o vinho não foi transubstanciado nem representa o sangue. Aos olhos do Senhor, não há representação nem transubstanciação.
Paulo argumenta do mesmo modo quando diz: “Porventura, o cálice da benção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo?O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? (1º Co 10.16). É o pão, mas Paulo o reconhece como o corpo de Cristo. É o cálice, mas, ele o aceita como o sangue de Cristo.
Aos olhos de Paulo, não há nem representação nem transubstanciação, apenas realidade espiritual. Ele explica ainda mais; Nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo(v.17). Como ele poderia dizer isso se não tivesse tocado a realidade espiritual?
2)Batismo: Paulo fala do batismo (Rm. 6.3-5). Para ele o batismo é morte, sepultamento e ressurreição (Cl. 2.12). Ele o vê como uma realidade espiritual. Nos vemos simplesmente, água, capa, o batizado e o oficiante. O Apóstolo tem um grau de espiritualidade bem maior do que o nosso. Ele vê a igreja assentada nas regiões celestiais em Cristo (Ef. 2.6) Nós a vemos assentada nos bancos do templo, devido a nossa pobreza espiritual.
O conhecimento desta realidade não se obtêm através de livros, palestras, informação etc. Requer um órgão mais aguçado do que os sentido da visão, mais perspicaz do que da audição  e mais sensível do que sentido do tato. Quando Jesus chegou às partes de Cesárea de Felipe (norte de Israel), interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o filho do homem? E eles disseram: Uns, João Batista; outros, Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas.
Disse-lhes ele; E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi a carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.” (Mt.16.13-17)
O sangue está relacionado com a alma (pensamento, sentimento, entendimento e vontade), e a carne, com o corpo. Nem a alma (racionalidade) nem o corpo, podem revelar a realidade do Espírito, ou o conteúdo espiritual. Sem revelação não há vida. Em João 6.63, Jesus afirmou “as palavras que eu vos disse: são espírito e vida”.
É por isso que o apóstolo Paulo, disse aos crentes de Éfeso, que “orava para que o Pai da glória, desse a eles o espírito de sabedoria e revelação. (Ef. 1.16-17) .
Sem revelação espiritual, caímos nos meandros da Razão, tais como fizeram: Maria mãe de Jesus “como se fará isso, visto que não conheço homem? (Lc. 1.34). Nicodemos “como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?”(João 3.4). Felipe, “duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão, para que cada  um deles come um pouco. (João 6.7). No episódio da mulher pecadora “na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas”(João 8.5). O cego de nascença. “Os seus discípulos lhe perguntaram dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? (João 9.2). Maria irmã de Marta. “Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias”(João 11.39).
Nos exemplos acima tanto o anjo Gabriel, como Jesus, falaram de realidade espiritual, porém as pessoas não compreenderam por estarem mergulhadas em pensamentos e conceitos racionais.
3) O Sangue e a consciência: Hb. 9.14 “quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a vossa consciência das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo”? Como o sangue do Senhor Jesus purifica nossa consciência, nunca poderá ser respondido na esfera física. Podemos imaginar uma pessoa na ocasião da crucificação espargindo o sangue do Senhor Jesus sobre o próprio corpo, conseguindo assim, purificar sua consciência? Ela não seria purificada dessa forma, pois o Espírito Santo é o executor de todos os fatos espirituais. Quando o Espírito Santo purifica nossa consciência com o sangue, Ele usa a realidade espiritual daquele sangue, não suas propriedades físicas, para nos purificar. Somente o que está no Espírito Santo é real.
4)Amor: O capítulo 13 de 1º Coríntios nos oferece um quadro muito vivo para exemplo do amor.  Do ponto de vista humano, raramente se encontra um homem com um amor como é descrito no versículo 3. “Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado”. Pode-se dizer que não existe amor maior do que este. Todavia, Paulo acrescentou: se não tiver amor, nada disso me aproveitará”. Isso significa que existe a possibilidade de não se ter amor mesmo quando se dá todos os bens aos pobres e o próprio corpo para ser queimado. A não ser que alguém toque a realidade do amor no Espírito Santo. Sua atitude é apenas uma conduta exterior. É possível a pessoa dar todos os seus bens para alimentar os pobres e seu próprio corpo para ser queimado, sem que haja amor nele. Também é possível um irmão dar “a beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos” e receber galardão (Mt. 10.42). A questão aqui não está no muito ou no pouco que é feito, mas em se a realidade é tocada. Somente a realidade contatada pelo Espírito Santo é real.
5)O suprimento da Igreja: O alimento da Igreja é vida. O suprimento de vida é o único e exclusivo alimento da Igreja. A questão não é o que podemos dar, mas o quanto, já temos dado à Igreja. O que demos de realidade à Igreja? Se não tocarmos a realidade,  não teremos nada para suprir as pessoas. Somente o que é espiritual, que tem a realidade por trás da palavra, pode suprir a Igreja. De todas as obras do Espírito Santo, duas são de primordial importância: a revelação do Espírito e a disciplina do Espírito. A primeira nos capacita a saber e a ver a realidade espiritual, enquanto a segunda nos conduz a experiência da realidade espiritual por intermédio de arranjos circunstancias.
Podemos dizer que a revelação do Espírito Santo é o alicerce, enquanto a disciplina do Espírito é a construção. Ambas, revelação disciplina  acontecem ao mesmo tempo. 
Enfim, queremos afirmar que os elementos da Ceia do Senhor não são meros símbolos. Após serem abençoados existe no ato solene, uma realidade espiritual que não pode ser percebida pelos sentidos humanos (visão, audição e tato), mas tocada, através de revelação divina (Mt. 16.17). Existem dois tipos de pessoas, as que “apertam” Jesus, e as que “tocam” no Senhor (Mc. 5.30,31). Tocam pela fé, “e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm. 14.23).
Finalizando, devemos enfatizar que, ao estudarmos a doutrina da representação simbólica, não encontramos na Bíblia, um versículo, ou uma só palavra que de suporte a doutrina da simbologia ou que se refira a ela. Entendemos que se não há base bíblica,  doutrinas assim, devem ser rejeitadas.
 A. Américo 
Pr. Setorial (06 – Indianópolis – São Paulo)